Em uma divertidíssima manhã, Calloni foi à UniverCidade de Ipanema participar de uma coletiva com os alunos de jornalismo, na aula do Professor Moysés Fuks, com quem Calloni pesca regularmente. Na maior parte do tempo com seus óculos escuros, o ator gesticula bastante para se espressar e avisa aos alunos: “ Hoje estou uma pouco parado, devido o meu pós-operatório!” Os alunos ficaram animados e dispararam perguntas sobre, carreira, cinema, teatro, literatura, dieta, psicanálise... O resultado de tddo isso você confere agora.
Luka Marinho: Existe uma técnica para escrever poesias?
Antonio Calloni: Em relação ao processo eu tenho idéias e não anoto nada por que para mim as idéias se elas são boas elas permanecem na cabeça. Eu acredito que exista o processo só não a rigidez, o processo pode mudar a qualquer momento conforme a inspiração.
LM: E para atuar há um processo rígido?
AC: Como ator você deve saber, ter as técnicas e ser cara-de-pau, pegar tudo, mas na hora de interpretar e joga fora e brincar com o faz de conta, essa é minha forma. O melhor é você compreender a situação. E claro ouvir o outro, deixar sua mente em espelho, quando o outro ator fala não pense em nada apenas escute.
LM: Como escritor, qual sua opinião com relação ao novo acordo ortográfico?
AC: O português uma língua dificílima, eu aprendo umas palavras novas todos os dias com o meu filho. E incrível, ele tem 14 anos e me ensina muito. Eu sempre fico atento as novidades.
LM: Na hora de escrever, você se espelha em alguém?
AC: Eu sou muito fã do Manoel Bandeira que eu acho incrível, O Manuel de Barros e outro fantástico, e claro como eu podia esquecer o Fernando Pessoa que e indiscutível. Outro que é bem contemporâneo é o Elder Marcedo, que eu lembro do livro Viagem de Inverno que ele descreve o fato melhor que qualquer mulher do mundo... [risos]
LM: Você dá vida à personagens de uma forma que faz com que as pessoas se identifiquem. Você mistura o Antonio com os personagens ou não?
AC: As escolhas da vida em relação a sentimentos cotidianos, com essa realidade você carrega os personagens, mas se anular jamais! Por que uma obra de arte é uma combinação do seu depoimento pessoal com o que está sendo proposto, deve haver sempre essa mistura, meu depoimento pessoal estará em tudo que eu escrever, interpretar. Se isso não acontecer tem alguma coisa errada. A Fernanda Montenegro, por exemplo, tem sempre um pouco dela nos papeis, eu acho isso magnífico!
LM: Você emagreceu 20 Kg em 5 meses...
AC: Eu sempre fui galã, [risos] e antes eu era dois galãs agora sou só um. Falando sério, isso sempre fez parte da minha vida, sou meio sanfona de emagrecer e engordar muito rápido, e só quando eu tava fazendo BELEZA PURA eu me toquei que estava acima do peso e pensei opa ta na hora de diminuir, mais todos os anos eu faço meus exames e tava tudo ok. Essa dieta que fiz, todo nutricionista falaria que é loucura. Foi algo radical, mas com um acompanhamento médico. Não foi nenhuma dieta maluca!
LM: Você teve depressão e desde então faz sessões de psicanálise. Resolve?
AC: Até hoje eu desconfio [risos]... Eu não sei exatamente para que serve, acredito que se eu estou indo é porque serve para alguma coisa. Eu busco entender as relações com tudo e com Deus por exemplo.
LM: Algum personagem você guarda com mais carinho na memória?
AC: Na TV foi o Bartolo, de Terra Nostra por eu estar em contado com a história da minha família. Eu estava vestido de italiano no memorial dos imigrantes em São Paulo lá onde eles chegaram de verdade. Eu fui procurar se achava alguns parentes, digitei no computador e encontrei meus avôs e isso foi genial. Nunca vou esquecer. Não posso esquecer o Mohamed de O Clone, e o Chateubriand da minissérie, Um Só Coração.
LM: E no teatro?
AC: No teatro foi um espetáculo que eu fiz em 90 que se chamava A Secreta Insanidade de Cada Dia, eu fazia um louco que achava que era Karl Marx, era de humor é foi maravilhoso.
LM: E qual você prefere? TV, teatro, cinema, literatura...
AC: Tv, tem uma coisa que eu acredito que hoje eu tenho substituído o teatro pela literatura, tenho essa impressão que eu estou substituindo, mais a TV é que me fascina mais. Eu não sou a melhor pessoa para falar de teatro, por que na realidade eu costumo ir mais em cinemas, mas o que vejo acho maravilhoso.
LM: Como você se tornou ator?
AC: Eu tinha 19 anos e entrei no curso do Antunes e durante o primeiro mês eu era o maior ator do mundo! No resto do curso todo eu fui o pior ator que ele tinha! [risos]. Só havia ido ajudar uma amiga e quando terminou ele falou “você sai, você fica”. E foi assim que eu acabei ficando. Mas o teatro não foi minha primeira manifestação artistica.
LM: Então qual foi sua primeira manifestação artística?
AC: Minha primeira manifestação artística por mais incrível que pareça, foi na escrita. Em uma viagem da família à Itália eu fiz um poema em homenagem a vila que meu pai nasceu. Meus pais gostaram e isso foi um estimulo muito grande e foi nesse momento que eu peguei gosto pela literatura. Tinha apenas 13 anos!
LM: Qual sua opinião sobre a mídia, os programas que ela oferece para o povo brasileiro?
AC: Eu amo Big Brother, por que eu amo essas coisas trash! [risos] Mas jamais participaria. Felizmente ou não, a nossa cultura é feita em novelas e programas de auditório, a gente não nasce lendo Shakespeare.
LM: Você costumava caçar pombas...
AC: Sim,até um dia que atirei e ela não morreu: ficou caída agonizando. Nesse momento me senti mal por estar tirando a vida de um ser que nada me fez e não poderia se defender, lutar pela vida. Então parei de caçar. E na hora de pescar, não pode ser peixe de bico... É quase a memsa coisa da ave.
LM: E você ainda tem sonhos para conquistar?
AC: Sempre falta conquistar mais alguma coisa, não existe a falta de movimento!! Nem a morte existe, por que a morte é dita como o “parado” e não há o parado. Quando não existir mais nada que eu queira conquistar, eu invento!
LM: O César, seu personagem em Caminho das Índias, tem causado uma revolta no público, mas ao memso tempo ela se torna querido por todos. Como você consegue agregar tantos sentimentos ao personagem?
AC: O personagem tem um tom cômico já no roteiro mesmo, mas é claro que prefiro sempre levar para o humor para aproximar as pessoas e fazê-las se interessar pelo assunto e pelo trabalho. Hoje quando me encontram nas ruas, falam que estão com ódio de mim – do personagem - com um sorriso no rosto, e isso faz toda uma diferença! é a recompensa do esforço, do trabalho.
LM: Mas você nem sempre quis ser ator...
AC:Não... Desde pequeno eu assito as novelas não pela história, mas pelos diretores. Mas teve um momento de minha vida em que larguei tudo! Joguei pro alto, e fui fazer curso de datilografia e após concurso para o Banco do Brasil. Foi o ANtunes que me fez voltar a atuar. Em 86, estava em cartaz com a peça Velhos Marinheirosos, teatro da oficina, fui visto pela Graça Motta e chamado para fazer a minissérie Anos Dourados, primeiro trabalho na TV Globo.
LM: Você ganhou dois prêmios de melhor ator ( ACIE de Cinema e Festival de Gramado ) com o filme Anjos do Sol...
AC: Anjos do sol para mim, artisticamente, foi uma benção dos céus, assistam, tem um tema fantástico. Aliado a esse lado do entretenimento, fala de um tema muito sério que é a prostituição infantil, sem ser d euma forma apelativa, conseguimos ser sérios em relação ao tema, mostrar essa realidade sem acontecer nenhuma cena de sexo com menores! Tenho uma felicidade imensa de fazer parte desse trabalho.
LM: Qual você acha que foi o sucesso do filme?
AC: O filme tem um tratamento artístico muito bom, o roteiro é muito preciso de falar com conveniência de alguns políticos, de algumas autoridades. Eu digo alguns porque o grande erro da nossa sociedade é generalisar. O Filme fala muito do machismo, da falta de condições que algumas das nossas crianças tem de sobreviver. Quando vejo a reação das pessoas que já viram o filme, me comove demais. Essa questão tem que ser muito descutida.
LM: Às vezes o ator vai emendando um trabalho no outro. Você já tem algum projeto para depois de Caminho das Índias?
AC: É muito bom quando se tem pique e personagens com os quais noas agora, quero ficar com meu filho e com minha mulher. Só isso já está bom!


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